18 de dezembro de 2008

Bira de la Mancha!

Nascido Ubiratan Libanio Dantas de Araújo, em São Paulo, capital, no dia 03/03/1963, é mais conhecido no Brasil e em todo o mundo como Bira Dantas. Vive em Campinas/SP onde casou com Claúdia, tem uma enteada, Alice de 26 anos e sua filha Thaís de 8 anos. Um dos maiores mestres do traço nacional, o Bira, concedeu-nos essa entrevista, juntamente com essas ilustrações exclusivas para o KEN PARKERBlog, em comemoração aos 30 anos de Rifle Comprido no Brasil.

Conheçam agora um pouco mais desse grande ilustrador.

1° - Conte-nos um pouco, quem é Ubiratan Dantas?

O Ubiratan é pessoa séria, com CIC e RG. Já o Bira, apesar de sempre estressado com prazos e projetos que bagunçam sua mesa enorme, é uma pâmdega. Desenho e posto imagens na web o dia inteiro. E meu computador ainda está cheio de caricas, cartuns, quadrinhos e esboços inéditos. Sou um cara completamente desorganizado. Talvez por isso eu me dê tão bem com a internet e várias listas de discussão que participo: (ImagoDays, Front, Ilustralista, Gibiteca, Comic Nacional, Robin Wood, Animadores, Caricaturistas, etc).

2° Como se deu seu contato com os quadrinhos?

Ainda criança, meu pai comprava O Globo no domingo. Eu caía direto no Globinho, que trazia aventuras de Asterix, Tarzan, Fantasma, Flash Gordon, Dick Tracy, Brucutu, Lucky Luke, Capitão Eco (Miguel Paiva) e muitos outros. Depois foram os gibis em formatinho da Bloch (Capitão América, Hulk, Thor, etc). Eu copiava tudo isso. Adorava os irmãos John e Sal Buscema. Depois foi a vez dos gibis da Ebal. Curtia tudo, mas preferia Batman, Superman e Tarzan. Gibi Semanal e Kripta. Finalmente caí nos westerns. Na TV, era Super Dínamo, National Kid, Vigilante Rodoviário, Besouro Verde, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar e todas as animações toscas da Marvel, claro. Depois Pecos Bill e Calafrio, editados pelo Zalla e toda a série da Circo Editorial (Chiclete com Banana, Geraldão, Piratas do Tietê, Circo), além das publicações do Marcatti (Lodo, Mijo, Soslaio, Refugo) e Níquel Náusea. Dei uma entrevista pra revista Quadrinhópole onde falo sobre muita coisa relacionada à HQ.

3° O curso de Editoração em História em Quadrinhos que você fez na USP foi seu primeiro contato com a Nona Arte de modo profissional?

Não. Antes disso eu já trabalhava como desenhista do gibi Os Trapalhões, no estúdio do Ely Barbosa. O curso na ECA foi uma tentativa de me aprofundar na parte mais técnica da produção, do corpo de uma revista, e não apenas de uma HQ isolada. E foi muito legal. O Gualberto e o Jal eram os professores (tinham substituído a Sonia Bybe Luyten) e levavam caras como Ziraldo, Maurício de Souza, Angeli, Fernando Gonzales pra gente ouvir. E tudo terminou com mais uma edição da Quadreca, o fanzine-laboratório de HQ. Aliás, publiquei uma HQ na Quadreca há uns 2 anos. Foi quase uma "A volta dos Mortos-Vivos" (rs)...

4° Quais são suas maiores influências nos quadrinhos e nas caricaturas?

Nos Quadrinhos, Albert Uderzo, Will Eisner, Morris, Neal Adams, Buscema, Hal Foster e Alex Raymond. Mesmo no meu estilo cômico, sei que aprendi com eles muita coisa de anatomia, perspectiva, movimento, construção de cenas. Nas caricas: Mendez, J. Carlos, Belmonte, Paulo e Chico Caruso, Edgar Vasques, Ziraldo, Loredano, Mulatier, Morchoisne, Rampal, Sebastian Krüger, Al Hirschfeld.


5° O que gosta de ler e quais quadrinhos compra hoje em dia?

Leio tudo. Revistas (como Ser Médico, Pesquisa e Tecnologia, Revista do Brasil, Caros Amigos, Piauí, A Semana, Wismania, Mundo dos Super Heróis), livros sobre Quadrinhos (todos do Gonçalo Junior e Maurício Pattos de Sá) e de temas variados (estou lendo Zorro de Isabel Allende e Os Príncipes da Irlanda, de Edward Rutherfurd), mas jornais como Folha e Estadão só quando vou ao sindicato (Sinergia) que publica minhas charges. Estou cansado de notícias superficiais, tendenciosas e mal escritas. É isso que a gente encontra nas Vejas e Folhas da vida.

Quadrinhos: Marvel Max, Fábulas Pixel, Superman & Batman, LJA, Julia Kendal, KEN PARKER, tudo do Spacca (Santô, Debret, D. João carioca), As obras de Carl Barks, Spirit (velho e novo), Tex, Aú (o capoeirista), Literatura em Quadrinhos (tudo), quase tudo do selo Quarto Mundo, Conan, MAD, Zupi (revista de arte), Samurai Executor, tudo do Osamu Tesuka e do Joe Sacco, tudo do Marcatti, Turma da Mônica Mangá, Turma do Xaxado, Graffiti.

6° Recentemente lançou o álbum Dom Quixote, ilustrado por você. Conte-nos um pouco sobre o processo de criação e como foi trabalhar com uma das maiores obras da literatura universal?

Li essa obra genial na íntegra em março de 2007, comecei a preparar o roteiro em maio ao mesmo tempo em que fazia o estudo de personagens, de roupas, arquitetura e cenários. A pintura seria toda em aquarela. Um amigo, o jornalista e pesquisador de Quadrinhos e Caricaturas João Antonio Buhrer, me emprestou a adaptação publicada pela Ebal na década de 50 e muito material gráfico.
Originalmente teria 120 páginas. Em junho a minha idéia era publicar em dois volumes, como no original. Em dezembro de 2007, com 80 páginas rot
eirizadas, 15 arte-finalizadas, 6 coloridas, 40 esboçadas, os editores pediram que eu reduzisse para 80 páginas. Eram questões de custo final e perfil editorial. Apertei as primeiras 40 para coincidirem com a metade do livro e refiz o roteiro das outras 40. Levei até janeiro de 2008 para finalizar os desenhos com nanquim e escrever os diálogos. Claudia e Thais, minha mulher e filha ajudavam a apagar o grafite das páginas para eu poder xerocar e pintar com aquarela. Tudo isso era digitalizado. As páginas p/b eu postava no blog; as coloridas, em alta resolução, eu apagava os balões, retocava e guardava para digitar os textos definitivos. Em fevereiro de 2008 me enviaram o texto revisado. Em março fizemos a primeira impressão em p/b já com o texto novo.
Terminei de pintar e digitalizar a HQ em 15 de abril de 2008.
No dia 19, estava tudo gravado num DVD, inclusive a capa nova (um close na cara estropiada de Dom Quixote), que acabou mudando pra se diferenciar da série Literatura Brasileira em Quadrinhos.
Uma pena, pois eu tinha feito uma versão da capa de Antonio Euzébio para Edição Maravilhosa da Ebal.
Durante esse tempo todo, fiz pausas para pesquisas e minha produção normal: Charges para Sindicatos (Sinergia, Sindipetro, Sindiquim); Quadrinhos para revistas (Front, Quadrinhópole, Câmara de Itatiba, Fundacentro) ; ilustrações (Rigesa, Caterpillar, Unimed); caricaturas para a internet, atualizações de fotologs e ainda buscar a filha na escola, levar no caratê, etc.
Só no D. Quixote, gastei uma caixa de aquarela Sakura, uns 8 litros de água (pra aquarela, não pra beber), 3 canetas pretas (artist pen) Pitt Faber Castell, 12 canetas descartáveis de nanquim UniPin japonesas, 0.3, 0.5 e 0.8 mm, 5 canetas de retroprojetor, 10 caixinhas de grafite 2B, 0.7mm, Pentel, 4 canetas pretas ponta porosa Faber Castell (ótimas), 3 marcadores de retroprojetor pretos da Pilot, 4 borrachas TK-Plast grandes (alguém fez uma denúncia sobre a caixinha verde que era tóxica, mas continua sendo a melhor borracha pra apagar lápis que já usei), 180 páginas de papel Chamex Super, A4 e 90 cópias xerográficas...em algumas épocas cheguei a trabalhar 18 horas, num dia, sem parar.

Quando arte-finalizava, cheguei a fazer 5 páginas por dia no nanquim. Isso me dava dor na parte de cima do braço, a conhecida tendinite. De 1 em 1 hora eu levantava e alongava os braços e costas.

7° Vamos a KEN PARKER. Quando se deu, seu primeiro contato com Rifle Comprido? Foi paixão a primeira lida?

Sim. Desde que Cisco Kid, Tenente Blueberry, Comanche, não eram mais publicados, parei de ler esse estilo de Quadrinhos. Mas quando, sem querer, folheei uma revista do KEN PARKER na banca, fiquei estático. A arte de Milazzo me ganhou de primeira. Entrei no ônibus e ao ler as 10 primeiras páginas, a escrita fantástica de Berardi me ganhou de segunda! Apesar de KEN PARKER ter surgido aqui em 1978 (Editora Vecchi), eu só fui conhecer a série em 90, KEN publicado pela Best News. Achei alguns exemplares em sebos e depois, li os editados pela Mythos. KEN PARKER, assim como Tex, é um belo exemplo de Quadrinhos com Q maiúsculo.

8° Quais as 5 melhores e as 5 piores histórias do personagem?

As melhores: O MESTIÇO MÉTIS (que trama fantástica), UM PRÍNCIPE PARA NORMA (poesia em forma de HQ), FILHOTES, A LUA DA MAGNÓLIA EM FLOR, SOLEADO E PÁLIDAS SOMBRAS.

As piores? Passo! Não foram feitas!

KEN PARKER é um dos poucos personagens na histórias dos quadrinhos, que foi agraciado com coadjuvantes excepcionais, nos emocionamos com Mandan, Pat O'shane, o simpático Dash, entre tantos outros... Qual o seu personagem preferido?

O índio Kamoose, amizade é algo que devemos valorizar na vida real e nos quadrinhos e a sua morte nos braços do KEN PARKER (SILÊNCIO BRANCO) foi antológica.

Norma Jean, linda homenagem à estrela de cinema Marlyn Monroe, e ela balançou o coração de nosso herói.

Taí, amizade e amor verdadeiros!

10° Ivo Milazzo, em entrevista, anunciou recentemente que está trabalhando num roteiro de Berardi, para enfim, finalizarem a saga de Rifle Comprido. Você é a favor dessa volta? Porque?

Claro que sou. Esta dupla trabalha em total sintonia. É só ver a série aquarelada que o Clube dos Quadrinhos (CLUQ) publicou aqui. Mesmo sem o texto precioso de Berardi, a sua história está lá presente. Os 4 álbuns mostram detalhes solitários da vida no campo com um grau de delicadeza e poesia, que poucos conseguiram atingir.

Eu só não gosto da idéia deles "finalizarem" a saga. Por quê? Poderiam continuar pra sempre! Os leitores de boas HQs só teriam a ganhar!


Acompanhem o lançamento do álbum Dom Quixote:

LANÇAMENTO DUPLO DE BIRA NESTE SÁBADO
HQ Mix Livraria
Lançamento neste sábado (20/12)
A partir das 17h00
Pça Roosevelt, nº 142
Centro - São Paulo - SP
Tel (11) 3258 7740

DOM QUIXOTE
De Miguel Cervantes, por Bira Dantas
88 Páginas
Lombada Quadrada
Papel Couche
4 cores
R$ 23,90
http://domquixotehq.blogspot.com/

COLETÂNEA DE QUADRINHOS
A HQ "Vida e Morte" (roteiro de Heringer, desenhos de Bira, publicada na Garagem Hermética 2) foi uma das escolhidas.
http://www.terracotaeditora.com.br

E PRA FINALIZAR A NOITE, PIZZADA DOS CARTUNISTAS NA PRESTÍSSIMO
"Pro ano não acabar em pizza"
Dia 20 de dezembro, a partir das 20:00
Prestíssimo Pizzaria
Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, Jardins
Tel: (11) 3385-4356
http://www.pizzada.net/

Fica aqui o nosso agradecimento a esse grande desenhista, mestre da nona arte, que gentilmente colaborou com o nosso blog. Parabéns Bira!

KEN PARKERBlog

12 comentários:

Bira disse...

Caramba, pessoal!
Isto que é capricho!
Ótima a edição de vcs!
O problema é que eu escrevo muito (rs)!
Abraços e parabéns pelo Blog!

Lucas Pimenta disse...

Escreve muito não, mestre... Foi um prazer entrevistá-lo e lê-lo!

Obrigado pelos elogios.

Abraços

Anônimo disse...

Parabéns pela excelente entrevista pessoal.
Foi muito bom conhecer o Bira.
AMoreira.

José Carlos Francisco disse...

Mais uma excelente entrevista em que fiocamos a conhecer um pouco mais do Grande Mestre Bira Dantas!
Parabéns ao entrevistado e aos entrevistadores... e obrigado pelo excelente conteúdo que nos continuam a oferecer!

João Guilherme de Lima disse...

Bira,
quero agradecer sua simpatia e atenção para com o KEN PARKERblog. Também quero parabenizá-lo por sua arte fantástica.
Sua carica a lá Dom Quixote, armado de pincel e borracha
TK-Plast é de uma criatividade ímpar. Gostaria de ver uma versão assim do fidalgo de La Mancha.
Parabéns!

João Guilherme.

Anônimo disse...

Foi uma bela entrevista! Adoro os seus desenhos.. parabéns!
Abraços

Pedro

Anônimo disse...

Adorei, Bira! Você é 1000!

Jessy

Nandinha disse...

Bira,
adorei a caricatura do meu pai.

bjOO,

Fer

Adauto silva disse...

Grande mestre Bira, sensacionais desenhos, maravilhosa entrevista. Obrigado ao Lucas e ao Bira pelo presente.

Paulo Barbosa disse...

Parabéns, Grande Bira! Mal posso esperar para ver o seu Quixote. Era o que estava faltando. De Dalí a Gustave Doré, passando por Orson Welles, a obra-prima de Cervantes é o nec plus ultra de todo artista gráfico (Welles tinha um pensamento gráfico das imagens em movimento). Um abraço do Paulo

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