19 de fevereiro de 2008

Uma história escrita pelos comanches: Butch!

Sul do Novo México, sob sol escaldante, dois cavaleiros percorrem a pista que vai de El Paso a Socorro. “Pare com essa água! Vai acabar enchendo a barriga como um camelo, e vai suar ainda mais!” - adverte o gigante de expressão rude. “Pro diabo, tento não pensar na sede, mas é mais forte do que eu! Com este maldito calor...não sei como você agüenta!” - retruca o companheiro. “Questão de vontade. E de hábito. Os comanches podem ficar quatro, cinco dias sem beber debaixo deste sol!” - os olhos atentos aos sinais do deserto. “Aprendeu com eles?” A resposta vem como golpe de lâmina afiada: ”Como tudo o que sei. Com os comanches, ou se aprende depressa ou se morre logo.”

Com esse diálogo tem início, talvez, a história mais violenta de Rifle Comprido, BUTCH, O CARNICEIRO! (KP 16). Comanches e Kiowas unem forças para um grande ataque. Os sinais de fumaça estão por toda parte, grupos de guerreiros por toda a região. No meio desse barril de pólvora estão o posto de troca Comanche Station e seus ocupantes, Roy (o proprietário), sua mulher Wendy (grávida), Jimsie, o filho mais velho (não mais que 12 anos), um bebê de colo e dois empregados mexicanos; os Hudson, um casal de fazendeiros; uma diligência, seu cocheiro simplório, o segurança, que sofre de gastrite e passageiros, um tenente do Exército e dois trapaceiros, pai e filha, que se fazem passar por tio e sobrinha, empresário e médica; KEN PARKER e Harvey Logan.



Bruno Marraffa não consegue dominar os traços do herói. Os cabelos, de tão alinhados, às vezes, lembram uma touca, até seu repartido é certinho demais. As costeletas, tão marcantes no scout, mal se consegue vislumbrar. Uma barba cerrada e negra, que aparece quase que do nada, completa a desfiguração. Nem mesmo nas roupas de Rifle Comprido ele se sente à vontade, a camisa parece apertada, o cinto é estreito e até o Kentucky perde a imponência. Eu arrisco a dizer: “Marraffa temia KEN PARKER”. Nos closes, o excesso de hachuras mal definidas dá uma impressão de sujeira (o que não acontece com quem domina bem essa técnica, Serpieri, só por citar). No entanto, ele é muito feliz desenhando Butch. As seqüências com os índios também são perfeitas, ágeis e soltas. Resolve bem a sensação térmica do deserto e consegue resultados belíssimos quando utiliza o claro e escuro. Marraffa é uma mescla de acertos e desarranjos. Em uma única prancha é capaz de agradar e irritar.

Butch Logan, o “carniceiro”, é um caçador de escalpos. Frio, cruel, inescrupuloso, cínico, arroganate e de uma coragem sem limites. Desprezado e temido pelos brancos, temido e odiado pelos índios, enfrenta a todos com o ódio dos condenados. Harvey Logan, aos oito anos, foi tomado como escravo por um chefe comanche que chacinou sua família. Sofreu todas as humilhações, foi surrado diariamente, comeu fezes de cães, nos invernos, para sobreviver e renasceu como Butch. Aos dezoito anos roubou a vida de seu raptor e fugiu com seu escalpo. Desde então caça e mata índios e vende seus escalpos no México. Butch Logan, de certa forma, é um justiceiro.

A narrativa
de Berardi, como não poderia deixar de ser, é impecável. Ele alterna momentos de extrema tensão com situações até mesmo cômicas, como a conversa dos condutores da diligência sobre os males do estômago. Os cortes são precisos, no momento oportuno, uma chance do leitor respirar, seguida de nova carga de forte emoção páginas adiante. O Mestre tece sua trama envolvendo as vidas de suas personagens, devido à situação em que se encontram, mas preservando, ao mesmo tempo, suas individualidades. O momento em que o tenente Robson, atônito por descobrir a verdadeira identidade da falsa médica, tenta, ainda, esboçar uma possível defesa e ela, impassível, lhe pede um cigarro é a prova disso.

KEN PARKER é mais um dos muitos coadjuvantes dessa história sangrenta que só pertence a Butch e seus verdadeiros inimigos, os comanches. As cenas de violência estão presentes em todo o episódio e sempre muito chocantes. Na maioria das vezes ela é explícita, como no assalto ao Comanche Station, onde apenas um Jimsie, em estado de choque, é poupado. A monstruosidade contra o bebê é o máximo da barbárie. Outras vezes, como no caso dos Hudson, é induzida. Ver o casal ser baixado das árvores, para um trágico fim é angustiante.


Berardi atinge o leitor com a selvageria, a insanidade e o desespero, próprios de uma raça consciente de sua extinção. Os aclamados diretores do gênero, não ousaram tanto em seus grandes filmes. Em Rastro de Ódio (talvez, o maior clássico a abordar o tema), o massacre da família de Ethan (John Wayne) e o assassinato de sua sobrinha mais velha, também seqüestrada pelos comanches, são apenas sugeridos.

No final, a redenção, mesmo não admitindo, Butch dá sua vida para salvar um outro garoto, Jimsie, do mesmo destino que Harvey não conseguiu se livrar. Um momento de grandeza ou de fragilidade de um homem duro? Não importa, o “carniceiro” está morto e os homens já dormem mais tranqüilos.
a
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João Guilherne

3 comentários:

Anônimo disse...

Amigão.
Ficou faltando informar para os novos iniciados, a editora e o nº desta edição.
Abraços.
AMoreira.

Rafael disse...

Putz, pode xingar aqui?

Só consigo pensar PQP...
Que história... e essa cena do bebe?

vou ter que correr atrás da minha...

Eu pensei a mesma coisa que o AMoreira, faltou citar a editora...

Saiu na vecchi? e a tapejara? relançou tudo nao foi?

Ainda acho a da tapejara? vou procurar...

Abração
excelente materia meninos.

Rafael

Mateus Albuquerque disse...

Não li mas tô muito curioso pra ler...

Uma história mais focada nos indios, e com outro personagemdividindo destaque com KP, deve ser muito interessante.

Aceito imprestimos de colecionadores da Bahia.